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Devido
ao contexto da época (antiga India), todas as escrituras tradicionais são
narradas de maneira excessivamente poética. Nesse site, por uma questão
de clareza e objetividade, estão apresentados apenas os fatos
comprovados historicamente, e que por isso, não dependem de convicções
religiosas ou filosóficas.
As Origens
Por
volta de 600 a.C., a Índia estava dividida em pequenos reinos e havia
cerca de 16 no vale do Ganges. Havia uma grande diversidade de idiomas,
muitos dos quais presentes até os dias de hoje. O reino ariano dos
Shakyas, um clã de casta guerreira, localizava-se entre o norte da Índia
e as montanhas do Himalaia, no sul de Nepal. Naquela
época, Shakya era governado pelo rajá Shuddhodana Gautama. O rei era
casado com duas primas, filhas do rajá Dandapani do reino de Koliya.
Apesar de quererem ter filhos, não conseguiram tê-los e já tinham
perdido as esperanças. Shuddhodana já estava com mais de 50 anos e sua
esposa tinha a idade de 45. Certa vez, a bela Maya-devi Gautami — a
esposa mais velha de Shuddhodana — teve um sonho cheio de sinais
auspiciosos. Os sábios astrólogos brâmanes interpretaram-no como o
prenúncio do nascimento de um filho prodigioso: ele seria um grande
imperador se vivesse no palácio de seu pai, ou um asceta se renunciasse
ao trono. Desde
aquela época, já existia na Índia uma grande variedade e rivalidade
de práticas religiosas e escolas de pensamento. Era nesse ambiente que
iria nascer o herdeiro do rei e da rainha Maya. O rei ficou ao mesmo
tempo esperançoso e preocupado. Ele não queria que seu filho se
tornasse um asceta andarilho, mas sim um imperador, que pudesse
solucionar os problemas do reino de Shakya e que aumentasse o poder do
seu clã.
O Nascimento
Ao
fim de sua gestação, Maya seguiu a tradição indiana e viajou para a
casa de seus pais em Kapilavastu, a fim de ter o seu filho lá. O filho
de Maya nasceu em Lumbini, um jardim de árvores Shala localizado entre
as cidades de Devadaha e Kapilavastu. No alvorecer do 8º dia do 12º mês
lunar de 563 A.C., sob uma grande árvore, a rainha deu a luz a
um belo menino. O
recém-nascido recebeu o nome de Siddhartha Gautama (aquele da família
Gautama que realiza suas metas). Um velho eremita chamado Asita foi vê-lo
e descobriu vários sinais no corpo do menino, confirmando as previsões
de um futuro promissor. Maya
faleceu uma semana após dar a luz e Siddhartha passou a ser cuidado por
sua tia, Maha Prajapati Gautami, que futuramente se tornaria a primeira
monja budista. A partir dos 7 anos, o príncipe Siddhartha começou a
ser educado por grandes professores, como o brâmane Vishvamitra, que
lhe ensinou a ler e escrever. Entretanto, Vishvamitra fiou tão
impressionado com o desenvolvimento extraordinário do menino que
preferiu deixar de ser o tutor de Siddhartha, alegando ter um
conhecimento muito limitado para poder educá-lo. Durante
os 7 anos seguintes, o príncipe estudou astronomia, geografia, textos
clássicos e seus comentários, filologia, matemática, música,
dança, composição, pintura e outras artes.
A Adolescência Quando
chegou à adolescência, recebeu de seu pai três palácios: um de mármore
para o verão, um de cedro para o inverno e um de ladrilhos para a época
das monções. Lá desfrutava das melhores comidas, bebidas, vestimentas
e todo tipo de prazeres. Um dos palácios tinha nove andares, o segundo
tinha cinco andares, e o último tinha três. Eles eram rodeados por
jardins de flores perfumadas, árvores cheias de pássaros, fontes de água
pura e cristalina, pavões e outros animais. Após
vencer um torneio por volta dos 16 ou 17 anos, Siddhartha casou-se com
Yashodhara Devi, filha do rajá Dandapani de Koliya (ou do ministro
Mahanama) e foi presenteado com o belo palácio de Visharamvan. Neste
torneio, o príncipe exibiu toda a sua excelência em literatura, gramática,
arco e flecha, montaria, esgrima e luta. Segundo algumas tradições,
Siddhartha casou-se também com Gopa (ou Gopika) e Mrigaja, mas foi com
Yashodhara que ele teve seu único filho, Rahula (cujo nome significa
"grilhão"). Além delas, Siddhartha teria tido também um
grande número de cortesãs à sua disposição. Aos 18 anos de idade,
durante uma cerimônia realizada no 8º dia do 2º mês, Siddhartha foi
ungido com as águas de quatro mares, recebeu o selo real e foi
investido como príncipe herdeiro do reino de Shakya.
O Caminho do Despertar
Com
a idade de 29, Siddhartha convenceu o seu pai de que já era o momento
de conhecer o mundo; o príncipe nunca tinha saído dos palácios.
Acompanhado pelo cocheiro Channa, o príncipe saiu de carruagem para
conhecer a cidade. O rei Shuddhodana tentou evitar que seu filho
presenciasse qualquer cena desagradável e mandou varrer e camuflar a cidade, além de esconder as pessoas que sofriam. Mesmo assim, em pontos
diferentes do trajeto, ele acabou se deparando como um velho
enfraquecido, um doente sofrendo, um morto sendo cremado e um asceta
errante. Muito entristecido e angustiado com tudo o que viu, retornou ao palácio de seu pai, discutiu com ele e decidiu
abandonar seu luxuoso estilo de vida. Ele decidiu trocar tudo o que
tinha pela busca do caminho que leva ao fim do sofrimento. Apesar
da vigilância ter sido reforçada para evitar a fuga do príncipe, numa
escura noite quando todos dormiam, ele acordou o cocheiro Channa e fugiu
pela muralha do norte, cavalgando seu rumo às margens do rio Anoma, no
leste. Channa
não gostou da idéia e, apesar das insistências, não conseguiu
convencer o príncipe a retornar. Siddhartha queria descobrir uma
maneira de eliminar os sofrimentos do mundo. E como nem mesmo sua riqueza
poderia livrá-lo da doença, velhice e morte, decidiu
renunciar à luxuosa vida palaciana e se entregou à austeridade da vida
ascética. Ele
ordenou que Channa retornasse para dar a pérola de seu turbante a
Shuddhodana, seu colar a Prajapati e seus ornamentos a Yashodhara. Como
símbolo de sua renúncia, cortou seus longos cabelos com uma
espada. Depois
de passar uma noite com o asceta Bhargava, ele encontrou os brâmanes
Alara Kalama e Udraka Ramaputra. Nas colinas Vindhyan de Rajagriha, no
reino de Magadha, Siddhartha aprendeu técnicas avançadas de meditação
muito rapidamente. Porém, os brâmanes não conseguiram responder às dúvidas
de Siddhartha quanto à natureza do eu, nem mostrar o caminho que leva
à extinção total do sofrimento. Durante
seis anos, Siddhartha praticou o ascetismo na floresta de Uruvilva em
Rajagriha. Para comer, tinha apenas um pouco de arroz. Para beber, tinha
a água da chuva. Estava acompanhado por outros cinco ascetas, que
teriam sido discípulos de Udraka Ramaputra.
De
tempos em tempos, o rei enviava oficiais até lá para tentar convencer
o príncipe a retornar; entretanto, eles não tiveram sucesso. Algumas
tradições afirmam que os cinco ascetas eram filhos de cinco elevados
ministros de Shakya, enviados até lá pelo rei Shuddhodana a fim de
proteger Siddhartha. Quando
percebeu que as yogas ascéticas não trariam o fim do sofrimento,
Siddhartha abandonou este estilo de vida. Subitamente, ele compreendeu
que o hedonismo e o ascetismo são dois extremos; nem a vida palaciana
nem a vida ascética poderiam pôr um fim ao sofrimento. O ideal é
seguir um caminho intermediário, o caminho do meio, o caminho do
despertar. Uma
jovem pastora chamada Sujata, filha de um importante aldeão de
Uruvilva, viu Siddhartha meditando e pensou que ele fosse alguma
divindade da floresta. Então, ela lhe ofereceu leite e arroz em um
recipiente de ouro. Algumas tradições também citam uma segunda
pastora, Radha, que também teria oferecido alimentos a ele.
A Iluminação
Os
cinco ascetas acharam que Siddhartha tinha abandonado sua busca pela
iluminação e partiram sozinhos para o Parque das Gazelas em Sarnath,
Varanasi (atualmente chamada Benares). Siddhartha foi para uma região
conhecida como Círculo da Iluminação em Bihar, onde os iluminados do
passado atingiram o despertar. Próximo ao rio, voltado para a direção
leste, Siddhartha sentou-se em meditação sobre um monte de grama,
protegido pela sobra da figueira de bodhi. Ele jurou para si mesmo que só
se levantaria após atingir a iluminação. Durante
sua permanência ali, sua mente foi assolada por vários tipos de
sentimentos e sensações perturbadoras, mas mantendo o equilíbrio
interior, continuou a meditar. Primeiro, Siddhartha lembrou-se de suas
incontáveis vidas passadas; depois, ele viu o processo de renascimento
de todos os seres; finalmente, ele alcançou a verdade última de todos
os fenômenos. No
8º dia do 12º mês lunar de 528 a.C., aos 35 anos de idade, Siddhartha
realizou sua própria natureza búdica e, conseqüentemente, compreendeu
o sofrimento, sua causa, sua extinção e o meio para extingui-lo.
Siddhartha alcançou a iluminação, e passou a ser conhecido como o
Iluminado, o Desperto (sânsc. Buddha), o Sábio dos Shakyas (sânsc.
Shakyamuni). Durante
mais 7 dias de meditação, o Budha se preparou para propagar ao mundo
pelo resto de sua vida, os ensinamentos (sânscr. Dharma) que teriam
como objetivo, ensinar
o caminho da iluminação às outras pessoas. Buddha
Shakyamuni pensou em instruir seus antigos professores, mas, com sua visão
interior, percebeu que eles já tinham falecido. Então, Buddha decidiu
procurar os cinco ascetas que tinham partindo para Sarnath, o Parque das
Gazelas em Isitapana, próximo a Varanasi.
Lá
estavam praticando o ascetismo, quase morrendo de fome. Num primeiro
momento, os ascetas não queriam conversar com o "renegado que
trocou o ascetismo por uma tigela de caldo de arroz". Mas quando o
Buddha se aproximou, eles perceberam a presença de um ser iluminado e
se curvaram diante dele com profundo respeito. O
asceta Ajnata Kaundinya (páli Anna Kaudanya) foi o primeiro a aceitar o
ensinamento do Buddha Shakyamuni, sendo seguido pelos outros quatro
ascetas. Algum tempo depois, o leigo Yasa (um jovem muito rico)
tornou-se seu discípulo, assim como seu pai, sua mãe e sua esposa. Em
três meses, o Buddha reuniu sessenta discípulos, que foram instruídos
e enviados a várias direções para transmitir seus ensinamentos.
Kashyapa, ex-sacerdote da seita dos Jatilas (adoradores do fogo), também
decidiu abandoná-la para seguir Shakyamuni, que viajava constantemente
pelo vale do Ganges, atraindo milhares e milhares de discípulos. Ele
passou muito tempo expondo o Dharma em cidades como Vaishali, Rajagriha
(capital do reino de Magadha) e Shravasti (capital do reino de Koshala). Os
ensinamentos do Buddha não se restringiam aos campos religioso e filosófico.
Por exemplo, Shakyamuni não aceitava a estrutura social indiana, que
discriminava as pessoas em diferentes castas. De acordo com o Buddha, não
há castas "superiores" ou "inferiores" porque todos
os seres têm a mesma natureza. Ele também criticou as doutrinas
fatalistas que permitiam o abuso de autoridade por parte dos brâmanes,
assim como também questionou os costumes sociais, políticos e
religiosos daquela época. Buddha rejeitava completamente o sacrifício
de animais para os deuses e, em seu lugar, pregou a prática da bondade
amorosa, da compaixão e da não-violência. Ele era conhecido não
apenas pela sua grande compaixão, mas também pela sua disciplina
severa e pura.
A
Morte
Continuou
ensinando e chegou aos 80 anos saudável e sem nunca desviar-se do
caminho a que se tinha proposto. Certa vez, ao chegar numa aldeia, foi
convidado para um almoço oferecido pelo ferreiro local. Apesar das
poucas posses do homem, todos podiam notar que ele havia se esmerado
para proporcionar ao Budha o melhor que suas posses lhe permitiam.
Dentre os pratos oferecidos, havia um leitão assado, e ao sentir o seu
gosto, o Iluminado percebeu que a carne já estava estragada. Sem
hesitar, pediu a atenção de todos e solicitou uma deferência especial
por parte do anfitrião. Disse que pelo esmero com que aquele prato foi
preparado, permitia-se um capricho, o de que ninguém mais dele se
servisse, devendo o mesmo ser enterrado, assim que ele terminasse sua
refeição. Desse
modo, o Buddha não apenas evitou que o seu humilde anfitrião fosse
envergonhado perante a população, mas também preservou a saúde de
todos que ali estavam. Mesmo sabendo que aquele gesto havia selado seu
destino. Após
muitas horas de uma dor aguda, ele pediu
a Ananda um leito virado para o norte, entre duas árvores sala. Todos
os discípulos estavam apreensivos, e Ananda chorava amargamente. Buddha
chamou-o e disse docemente: "Ananda, seus méritos acumulados são
incomensuráveis; você alcançará em breve a Bem-aventurança. Seu
choro é inútil. Tudo o que nasceu está sujeito à morte, portanto
dediquem-se com energia ao trabalho de emancipação final". O
Desperto pediu a Ananda para ir ter com os Reis Malla e relatar seu
eminente passamento. Os Reis choraram muito, e foram com suas famílias
até o local onde o Buddha se encontrava. Ao se aproximarem, fizeram
mesuras honrosas. Ele explicou-lhes novamente as Quatro Nobres Verdades
e o Caminho Óctuplo. Então pediu a Ananda e seus discípulos para não
se entristecerem. Mas Ananda ainda chorava, pensando: "Não teremos
mais o Mestre, após a sua morte". O Buddha disse: "Que o
Dharma seja vosso Mestre!" O Buddha pediu aos discípulos para
levantarem naquele momento suas dúvidas, de forma que ele pudesse
explicar, mas todos permaneceram calados. Ele aconselhou aos monges
diligência e fé. "Tudo que é composto, decompõe-se. Entro agora
no Nirvana".
No 7º dia do 6º mês lunar (ou 15º dia do 2º mês lunar) de 483 a.C., depois de proferir suas palavras finais, o Buddha Shakyamuni entrou em um estado de profunda meditação e alcançou a suprema paz (sânsc. nirvana), a liberação final (sânsc. parinirvana), no bosque das árvores shala em Kushinagara.
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